Para uma alimentação saudável nos jovens

Na última década, a importância de uma alimentação saudável na promoção da saúde e na prevenção de numerosas doenças que afetam o individuo ao longo da vida, tem sido um tema de grande preocupação para as entidades responsáveis, quer na área da saúde quer na área da educação.

Esta preocupação tem sido transmitida os pais e encarregados de educação, cada vez mais conscientes da necessidade de implementar uma alimentação saudável nas crianças e jovens.

Parece-nos, assim, importante, abordar o tema nesta pagina, trazendo a informação e o conhecimento de diversos especialistas que se têm debruçado sobre o tema.

Assim, para Isabel Loureiro (Ver. Port. Saúde Pública 2004; 22: 43-55)

“… os programas mais eficazes para a adoção voluntária de comportamentos alimentares saudáveis (nos jovens) resultam de um conjunto de estratégias concertadas entre os níveis individual, social e ambiental. Para os mais pequenos são particularmente importantes as estratégias que incluem a exposição às comidas num contexto social positivo, tendo como modelos de referência pares e adultos, bem como a utilização apropriada de incentivos. Para os mais velhos são mais adequadas estratégias de alteração comportamental, como a autoavaliação, a clarificação de expectativas e de valores, o estabelecimento de objetivos pessoais e a capacidade de escolha competente entre alternativas. Conhecimentos sobre alimentação saudável, associados ao desenvolvimento da capacidade crítica, parecem ser um bom preditor de escolhas saudáveis (Loureiro, 1994). Estimular a capacidade crítica requer o reconhecimento dos direitos da criança a expressar os seus pontos de vista. A capacidade crítica desenvolve-se através de uma reflexão sistemática sobre diferentes situações, consciencializando os seus próprios pensamentos e emoções e confrontando-os com o conhecimento adquirido sobre o assunto. Requer dar à criança a oportunidade de aprender, observar, julgar e escolher por si própria. Em educação alimentar torna-se importante haver lugar para a experimentação, podendo manipular os próprios alimentos. Para manter o interesse em aprender sobre a alimentação pode constituir uma boa estratégia focalizar mais a dimensão social e a vida pessoal e não tanto os nutrientes. Já Levy-Strauss referia «food is good to think» . Outra estratégia necessária consiste em reduzir as atuais dificuldades ou barreiras de acesso a escolhas alimentares desejáveis, tal como são percebidas pelos jovens. A associação entre os fatores ambientais e o comportamento dos jovens é clara em vários estudos (Story et al., 1996). Numa investigação recente sobre a previsão da ingestão de frutos e vegetais por adolescentes, Lytle e colaboradores (2003) concluíram que, para além da importância de algumas normas subjetivas, conhecimentos, espiritualidade/religiosidade, escolhas habituais de alimentos e estilo dos pais, quanto maiores as barreiras percecionadas, menor o consumo de frutos e vegetais (Lytle, 2003). Em promoção da saúde, o esforço maior consiste em mudar e desenvolver o ambiente físico e social (Grossmann e Scala, 1996).

Determinantes da escolha alimentar

Para Bruno Sousa, (Rev Fatores de Risco 2017; nº 43: 12-15), “A mudança de hábitos alimentares é condicionada por diversos fatores, e por isso, quando se vai fazer educação alimentar e nutricional, com o objetivo de corrigir erros alimentares, que habitualmente já estão enraizados e constituem hábitos alimentares de uma determinada população, temos de ter em consideração que as escolhas alimentares são influenciadas por:

  • predisposição biológica para determinados comportamentos, como o ser humano no nascimento gostar do doce e não gostar do amargo e do azedo, e de mecanismos de fome/saciedade;
  • experiência com alimentos, pois os seres humanos têm a capacidade de aprender a gostar de alimentos através da associação condicionada, tanto fisiológica como social. As crianças superam o seu medo de novos alimentos (neofobia) através de experiência reiterada de novos alimentos, oferecidos pela família e, muitas vezes refletindo as preferências culturais. Estes dois conjuntos de influências de natureza sensório-afetivas contribuem fortemente para as preferências alimentares dos indivíduos;
  • outros determinantes são os fatores pessoais, não só intrapessoais, como crenças, atitudes, conhecimentos, habilidades e normas sociais, como também fatores interpessoais, tais como a família e as redes sociais;
  • por fim, temos os fatores ambientais, que são essenciais, pois a disponibilidade de alimentos e a sua acessibilidade, bem como o ambiente social, as práticas culturais, os recursos materiais, e o marketing de alimentos, facilitam ou dificultam com que as pessoas sejam capazes de agir em função das suas crenças, atitudes e conhecimentos sobre a alimentação saudável.

 Como fazer educação alimentar e nutricional

Para este autor, “Quando a educação alimentar e nutricional é exclusiva ou essencialmente baseada na disseminação de informação não há demonstração de ser eficaz.

A educação alimentar e nutricional tem mais resultados quando se concentra no comportamento/ação (em vez do simples conhecimento), e liga sistematicamente a teoria, a investigação e a prática2,3.

Entende-se educação alimentar como qualquer combinação de estratégias educativas, acompanhada por apoios ambientais, destinados a facilitar a adoção voluntária de escolhas alimentares e de outros comportamentos relacionados com a alimentação e nutrição conducentes à saúde e bem-estar.

Por outro lado, a educação alimentar e nutricional deve ser abrangente, realizada através de vários locais e envolver atividades ao nível do indivíduo, da comunidade e da política.

Dependendo do fim a que se destina, temos de ter presente que a educação alimentar e nutricional poderá ter três componentes:

  • motivacional, onde o objetivo é aumentar a consciência e aumentar a motivação, abordando crenças, atitudes através de estratégias de comunicação eficazes;
  • ação, em que o objetivo é o de facilitar a capacidade das pessoas para agir através de definição de objetivos e competências de autorregulação cognitivas;
  • ambiental, onde os educadores trabalham com os decisores políticos e outros para promover um ambiente de suporte para a ação.

É também importante adaptar a educação alimentar e nutricional à população-alvo. Conhecer quais os fatores motivadores assim como quais as melhores formas de aprendizagem. Por exemplo, para uma população mais jovem, são particularmente importantes as estratégias que incluem a exposição às comidas num contexto social positivo, tendo como modelos de referência pares e adultos, bem como a utilização apropriada de incentivos.

Num ambiente escolar, é importante não só investir na capacitação dos alunos, professores, outros funcionários da escola, pais e outros membros da comunidade para serem capazes de terem comportamentos saudáveis, mas também é fulcral criar ambientes facilitadores dessas escolhas.

É particularmente nestas idades que se deve apostar para intervir a prevenir através da educação alimentar e nutricional. As experiências de vinculação na infância e a educação que se recebe nos primeiros anos de vida até à adolescência são determinantes na adoção de atitudes e comportamentos relacionados com a saúde.

Não podemos esquecer também que, face aos objetivos e à população-alvo da educação alimentar e nutricional, teremos de escolher a melhor metodologia. Para determinadas situações poderá ser útil o método direto, em que existe um contacto entre o educador e o educando, utilizando-se a palavra falada como meio de comunicação, favorecendo a interação com a audiência, a explicação e a clarificação. Como exemplos temos as palestras ou conferências, e a discussão em grupo.

Para outras, poderá ser utilizado o método indireto, em que existindo um afastamento de espaço e/ou tempo entre o educador e o educando, se utilizam a palavra falada, a escrita ou a imagem como meio de comunicação, sendo úteis como meio de sensibilização.

Como exemplos temos os cartazes, os folhetos, a internet, as redes sociais, os vídeos, a imprensa escrita, a televisão, e a rádio. Para além destes elementos essenciais na educação alimentar e nutricional, existe um outro muito importante: a avaliação!

Ao avaliarmos as nossas ações é possível determinar se os objetivos foram atingidos ou se as prioridades precisam de ser alteradas. Para além disso, permite identificar elementos que precisam ser modificados e formas para que as atividades possam ser aperfeiçoadas; possibilita identificar fraquezas e testar abordagens inovadoras.”

Carlos Perdigão
Autor:

Médico. Professor da Faculdade de Medicina de Lisboa.

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